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CAIXINHA DE RETALHOS


O TEXTO ABAIXO, "CAIXINHA DE RETALHOS", ESCREVI NO EMBALO MÁGICO,
PEGO DE CARONA, NOS TEXTOS DO MÁRCIO TRIGO.
CONFIRAM O BLOG DELE, É PURA DIVERSÃO!


www.marciotrigo.com/blog



Belinha ainda era muito menina.
Acreditava em fadas madrinhas, que voavam sempre escondidas por onde ela passeava.
Verdade que pareciam estar ainda mais perto quando Belinha criava alguma coisa.
Fosse na imaginação, fosse no papel, tecido, cola e tesoura!
E adorava guardar todas as suas experiências e quinquilharias numa caixinha de costura de madeira, linda e cheinha de retalhos!

Um dia, Belinha encontrou 3 pedrinhas verdes no jardim de sua casa.
Eram preciosas! A primeira se transformaria num lindo vestido. A segunda, num anel encantado da sorte, que a protegeria sempre que
ela passasse por algum perigo.
A terceira pedrinha se transformaria no seu cavaleiro encantado, que a raptaria do mundo preto e branco sem graça que ela vivia,
para viver com ela no mundo mágico das mil cores brilhantes.

Já era noite, então Belinha correu até sua caixinha de retalhos e guardou as 3 pedrinhas lá até o dia seguinte.

Quando amanheceu, ansiosa para estar bela quando seu cavaleiro aparecesse, pegou a primeira pedrinha e se vestiu com o lindo vestido.
Ele era todo bordado com milhares e milhares de estrelinhas.
Belinha ficou tão feliz que se pôs a rodar e rodar, até ficar completamente tonta, e acabou caindo no cercado de rosas do jardim,
cravando enormes espinhos pelo corpo, que estraçalharam todo o vestido.
Chorando sem parar, lembrou-se que a segunda pedrinha lhe daria o anel encantado da sorte.
Respirou fundo, secou suas lágrimas, levantou-se e foi até a caixinha.
Quando o anel já estava em seu dedo, seu brilho ficou tão reluzente, que cegou seus olhos.

E agora? Belinha faltava encontrar seu cavaleiro e não conseguia ver onde a terceira pedrinha estava!
Apalpando objeto por objeto, encontrou a caixinha.
Mas estava tão aflita para pegar a pedrinha, que sem querer, bateu forte na caixinha, e a tampa se fechou com tanta força,
que Belinha não conseguia mais resgatar a pedrinha de dentro dela.

Por que será que o anel não tinha protegido Belinha dessa desventura?

Belinha passou longos dias cega, com seu lindo vestido estraçalhado, e com o cavaleiro que seria seu grande amor, preso na caixinha,
sem poder libertá-lo do encanto.
Lembrou-se depois que seria ele quem a faria conhecer as mil cores brilhantes.
Mas como poderia, se além de não conseguir libertá-lo da caixinha, ainda estava cega?

Lamentou-se profundamente, e voltando a chorar, achou que não tinha mais sentido viver.
Completamente paralisada, deixava os dias passarem por ela, sem nada fazer.
Certo dia, um sabiá pousou em seu ombro e lhe perguntou por que Belinha vivia tão triste e quieta.
Então ela lhe contou toda sua história e ele lhe disse:

- Aguarde um sinal do Tempo!

Os dias se passaram e Belinha continuava ali, estática.

Até que um dia, a Primavera chegou. E com ela, a sua fada madrinha!
Ao ver aquela menina num estado lastimável, lhe ordenou que parasse de chorar e abrisse os olhos.
Belinha retrucou dizendo que de nada adiantaria abrir seus olhos, se estava cega e sozinha.
Paciente, sua fada madrinha lhe falou:

- Experimente abrir teus olhos! Passastes tantos dias fechada em si mesma, que não percebestes que em teu silêncio,
o Tempo deu-te resignação para compreenderes e corrigires teus erros.
As 3 pedrinhas foram um presente meu para ti, mas eu só poderia encontrar-te agora, que tens capacidade para compreenderes melhor teu destino.
Ao contrário do que pensastes, teu anel mágico protegeu-te todo este tempo.
A tua ansiedade para viveres logo teu sonho, só rendeu-te tropeços, e não tinhas condição de saboreá-lo exatamente como ele é.
E passarias por ele sem perceberes a dádiva de um sonho concebido.
Já tua cegueira, serviu-te para notares melhor cada visão que recuperas agora. Seja feia ou bonita, toda visão tem seu valor.

Então Belinha abriu seus olhos e viu que enxergava novamente, e melhor.
Percebeu que o preto e branco eram as cores que a pressa lhe concedia ver.
Por isso, mesmo que seu cavaleiro lhe mostrasse as cores, ela não as veria com a pressa.
Agora, já serena, as mil cores brilhantes surgiam reluzentes a sua frente.

E Belinha pode, finalmente, encontrar seu amor ao abrir devagar sua caixinha de retalhos.
E soube guardá-la muito bem depois.
Ela sabia que a caixinha a lembraria de toda essa sua experiência vivida.



Ana Martins

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